quinta-feira, 16 de junho de 2011

O Relógio Cuco
















O Relógio Cuco

Estava sentada em frente ao seu computador, como o de costume. Seu gato preto aproximou-se sorrateiramente e, exigindo atenção, pulou em seu colo, ela sorriu do atrevimento, pois dentre todos os seus bichos, ele era o único que não era dado a esse tipo de exibição gratuita de afeto, achou incomum, e conseguiu desconcentrar dos afazeres e para acariciar o bichano. Passados alguns instantes, ela voltou a olhar para tela, enquanto acariciava o animal, mas ele se zangou e teceu-lhe uma mordida.
– Animal imbecil!- Balbuciou, jogando o animal no chão e indo lavar a mão que sangrava.
Voltando para o escritório parou e olhou para o grande e velho relógio cuco pendurado na sala, que tocava somente à meia-noite. O havia comprado numa loja de antiguidades, o dono da peça havia avisado a ela sobre a peculiaridade, mas Ana achou o fato curioso e até engraçado, pediu um desconto no relógio e o levou para casa.
Lembrar daquele dia mexeu com sentimentos de Ana, e ela pegou-se nostálgica. Era como se estivesse sentindo falta de algo ou de alguém que não sabia bem explicar. Sentou-se no sofá e descansou um pouco o corpo, enquanto isso sua mente estava a mil. Recostou sua cabeça para trás uns instantes e permitiu-se um pouco de ócio.
***
Um barulho estranho estrondou no fundo da casa, perturbando suas divagações. Ela levantou-se assustada e saiu correndo em direção ao som irrefletidamente, desconsiderando o perigo da situação em que se encontrava: indefesa e sozinha naquela casa.
Viu um vulto se esgueirar em meio às dezenas de árvores de seu quintal, que mais lembrava um bosque, e que àquela hora da noite, sob a luz da lua cheia, ficava mais parecido com cenário de filme de terror. Parou um pouco e lembrou-se de uma amiga que implicava com aquela casa, com aquele quintal, e o com fato dela insistir em morar naquilo tudo sozinha.
– Se Mel me visse agora, com certeza me mataria com suas próprias mãos. – Pensou consigo mesmo e resolveu desistir da busca.
Voltou para dentro de casa, trancou as portas e janelas. Tentou se distrair. Sentou-se em frente ao computador de novo. Mas tudo agora a incomodava. Sentiu um calafrio percorrer de alto a baixo sua espinha. E como já se não bastasse, parou sem querer os olhos sobre o canto inferior direito de sua tela constatando o que não queria naquela altura dos fatos: Era sexta feira 13!
Em toda sua existência, Ana brigou com qualquer possibilidade de ser supersticiosa, e havia conseguido vencer todas elas menos uma: A terrível noite de Sexta feira 13!
Correu para o chuveiro, como sempre fazia quando algo a perturbava. Ficou debaixo da água quente. Olhos fechados, uma touca de plástico na cabeça para a água cair sobre ela imitando o barulho da chuva. É assim que relaxava.
Depois que saiu do banho, enfiou-se em um de moletom rosa. Tentou esquecer-se de tudo e quando quase conseguia algo começou a bater violentamente em sua janela. Pegou o telefone para pedir ajuda, mas estava sem bateria. Desesperou-se. Isso não podia estar mesmo acontecendo.
Começou a ouvir grunhidos que parecia vindo um animal selvagem.
– Um monstro. Um lobisomem! – Pensou.
– Calma Ana, não enlouqueça! – Gritou para si mesma, mas não parecia lhe obedecer. E nem suas pernas também pareciam.
Sentiu-se criança novamente, sentada à beira da fogueira com outras crianças, sob a tortura dos mais velhos a lhes contar contos de sexta-feira 13. Noites em que se via fascinada pelo perigo da imaginação alheia, e que suas pernas nunca respondiam, quando algum engraçadinho saía da escuridão e gritava aterrorizantemente colocando todos para correr. Todos menos ela, que ficava estática, parecendo que nem sequer tinha pernas.
***
Mas agora era diferente. Não havia fogueira. Nem crianças mais velhas. Ela mesma já não era mais criança, exceto pelo pavor que explodia em seu peito.
De repente, qualquer barulho silenciou, ela percebeu que o vulto saiu da janela e se dirigiu para outra, na lateral da casa, que dava para o Quintal-Bosque-do-Terror.
Deslizou-se pelo corredor sutilmente, com os pés descalços, para olhar pela fresta da janela, e quando finalmente teve coragem para espiar, deu de cara com o focinho de uma fera canina. Gritou histericamente e a janela começou a ser golpeada novamente, parecia que agora não ia aguentar.
– Pensa Ana, pensa rápido! – Gaguejava.
Por milagre achou suas pernas, e correu. Correu muito. Foi em disparada para cozinha e se agachou dentro de um dos armários tremendo.
–  Sexta-feira 13! Sexta-feira 13! Por quê?
A janela continuou sendo golpeada, até que finalmente cedeu. A fera meio gente meio lobo, entrou babando e ofegante pela casa. Jogou longe o cadáver de alguma criatura. Ana pode ver de dentro do armário que era o seu bichano que a pouco estava seguro em seus braços. Agora, não passava de uma carcaça ensanguentada.
Lágrimas quentes rolavam de seu rosto sem parar. Nada de racional passava por sua cabeça nesse instante. Chorava mesmo como uma pobre e condenada criança.
A fera dava cada passo lentamente farejando sua próxima vítima. Parecia se divertir com o jogo de esconde-esconde.
Ana já não sabia mais o que fazer, qualquer atitude parecia absurda diante daquela criatura peluda e mal cheirosa. Começou a rezar.
A criatura então chegou até onde ela estava, olhou com olhos vítreos para sua direção, quase que lhe adivinhando o paradeiro. Aproximou-se maleficamente e arrancou a porta que a escondia.
Aquilo parecia o próprio demônio. Olhou-a fixamente nos olhos enquanto segurava-lhe pelo pescoço levantando-a do chão.
Ana podia jurar que via um sorriso sarcástico em seus lábios-caninos. E, sem piedade, encravou suas garras afiadas no seu frágil corpinho.
Nesse instante, a besta-fera comemorou sua vitória com um uivo estremecedor:
– Cuco. Cuco. Cuco...
***
Ana acordou no meio da sala, com seu felino amolando suas garrinhas em seu moletom. Ela estava sem fôlego e completamente suada. Olhou para parede muito aliviada, e mais que isso, estava mesmo agradecida.
Seu Relógio Cuco acabara de salvar a sua vida.

© Por Lilly Araújo – Direitos Autorais Reservados.

Publicado na CBJE






2 comentários:

  1. Olá, desculpe invadir seu espaço assim sem avisar. Meu nome é Nayara e cheguei até vc através do Blog Diálogos Poéticos. Bom, tanta ousadia minha é para convidar vc pra seguir um blog do meu amigo Fabrício, que eu acho super interessante, a Narroterapia. Sabe como é, né? Quem escreve precisa de outro alguém do outro lado. Além disso, sinceramente gostei do seu comentário e do comentário de outras pessoas. A Narroterapia está se aprimorando, e com os comentários sinceros podemos nos nortear melhor. Divulgar não é tb nenhuma heresia, haja vista que no meio literário isso faz diferença na distribuição de um livro. Muitos autores divulgam seu trabalho até na televisão. Escrever é possível, divulgar é preciso! (rs) Dei uma linda no seu texto, vou continuar passando por aqui...rs





    Narroterapia:

    Uma terapia pra quem gosta de escrever. Assim é a narroterapia. São narrativas de fatos e sentimentos. Palavras sem nome, tímidas, nunca saíram de dentro, sempre morreram na garganta. Palavras com almas de puta que pelo menos enrubescem como as prostitutas de Doistoéviski, certamente um alívio para o pensamento, o mais arisco dos animais.



    Espero que vc aceite meu convite e siga meu blog, será um prazer ver seu rosto ali.

    http://narroterapia.blogspot.com/

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  2. Boa tarde Lilly!!

    Fiz um blog novo só com coisas sobre Deus... se quiser seguir, visitar...fique a vontade!

    Bom Final de Semana!

    http://reina-em-mim.blogspot.com/
    http://petalasdelis.blogspot.com/

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