sábado, 23 de julho de 2011

Dia Híbrido








Dia Híbrido

Hoje à tarde, enquanto eu repousava meus olhos no perdido do horizonte, sem procurar por nada, apenas tentando escapar daqueles instantes angustiosos do dia a dia que não chega a matar, mas por outro lado, tem um poder de ir sufocando-nos por dentro, como se quase conseguisse abrir a porta que dá passagem ao outro lado, e nos empurrar para onde todo mundo chega mais dia, menos dia. E tem uns dias que parece que até seria uma boa opção conhecer a “face oculta” da morte, mas há outros dias que a vida fica mais suave, psicodélica e até convidativa.
Hoje foi um dia híbrido. Não sei bem o que eu estava sentindo. Tantas notícias diversas de tantas vidas alheias. Fiquei absorta, vagando num ambiente perdido entre dois mundos.
Primeira surpresa e por assim dizer muito triste: Minha amiga de faculdade, que foi muito íntima, e muito importante durante os quatro anos em que nos graduávamos, enviuvou-se. Não que isso tenha idade certa, mas trinta e poucos, não me lembro exatamente, penso ser muito cedo para se passar por isso, e ainda mais que ela tem um filhinho pequeno e outro no ventre. Ainda assim a leucemia resolveu atravessar seu esposo para o outro lado. A notícia revirou minhas emoções. Nós duas já não temos contato direto há mais de dez anos, desde que nos formamos. É quase sempre assim, cada um vai seguir a sua vida, e o cotidiano se interpõe entre grandes amizades, mas ainda assim, senti a sua perda como se ainda estivéssemos bem próximas, quase pude adivinhar a expressão de dor que devia estar em sua face agora.
Já minha outra amiga da faculdade, está cheia de alegrias, teve seu segundo bebê, aparentemente de um casamento feliz. É um lindo menino. Um tão esperado homem na sua família. Ela foi coroada com o Lótus.
Uma prima minha, assombrada pelo título de “titia”, encontrou alguém especial, vai se casar, finalmente depois de tanta procura e tanta espera. O candidato parece ser mesmo pessoa certa. Estão apaixonados! Os dois estão nas nuvens! Fiquei preocupada. Fiquei feliz. Confusa ainda mais uma vez nesse mesmo dia.
Nesse vácuo do cupido também está uma querida tia, pretende se enlaçar finalmente, depois de ter saído de um longo e desastroso casamento. Agora, me disse que vai formalizar o novo relacionamento que a está fazendo sorrir e ficar como adolescente novamente.
Minha mais recente amiga, que conheci ao trabalhar com seu marido, está indo embora para sua terra, separada, me contou pelo MSN. Separou-se, depois de dois anos de um relacionamento conflituoso por causa da religião, de novo isso falou mais alto entre a humanidade. Ele judeu, ela cristã; e mais uma vez a religião conseguiu separar pessoas. Então agora ela não volta mais de sua distante terra natal, para nosso convívio que estava tão doce.
Dia estranho. Híbrido. Cheio de sentimentos que não consegui administrar ou classificar.
Enquanto isso, à tarde, eu repousava os olhos no horizonte, e pude contemplar um lindo colibri azul-esverdeado. Pareceu-me bem feliz, voando em volta da minha mangueira florida. Fiquei nostálgica, e um pouco preocupada de que ele virasse comida de um dos meus bichanos, enquanto voava inocente e alheio ao perigo, beijando as flores e cantarolando seu assovio agudo característico. Bastava um bote e num só pulo do gatuno, a avezinha iria fazer companhia ao marido da minha amiga, e descobriria o que tem do outro lado da porta sombria chamada morte. Mas não era ainda seu dia. Hoje não foi o último dia do colibri feliz. Ainda não. Cada um tem sua hora, cada tem no seu dia de dizer: - Adeus!
Assim, continuei o dia e deixei que o dia continuasse, sem saber o que sentir nesse dia tão mesclado de emoções, pois esse dia foi definitivamente: Um dia Híbrido!


© Por Lilly Araújo - Direitos Autorais Reservados.


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quarta-feira, 20 de julho de 2011

A maldição da mancha

















A maldição da mancha

Papai era corretor de imóveis desde que se entendia por gente. Isso era já coisa de família, o pai dele era, e o avô também. Mas papai não me obrigaria a seguir carreira não, ele era bem flexível, e disse que eu é que deveria escolher o meu futuro. Mas se eu quisesse seguir os seus passos já era meio caminho andado, porque eu vivia enfiado na agência, e muitas vezes o vi em prática fechando contratos mirabolantes. Ele era mesmo muito bom negociante.
Eu me lembro bem de uma das vezes em que papai fechou uma venda grande, a comissão foi tão gorda, que papai não economizou. Comprou para mamãe uma máquina de lavar de última geração, um micro-ondas novo, e é claro, chegou com flores em casa e levou-a para um jantar a dois. Chegaram tão tarde que eu nem vi. Mas no outro dia, ela estava com um sorriso incontido no rosto e um anel cujo brilho prendeu a minha atenção, e não só a minha, mas a do meu gatinho também, que ficava correndo atrás do feixe de luz produzido pela jóia. Mas, o melhor mesmo foi quando notei que no meio da sala estava um pacote enorme embrulhado para presente, e um bilhete com meu nome nele. Fiquei semanas vendo estrelas. Já nem comia mais direito. Finalmente eu ia poder treinar para as disputas de fim de semana com meus amigos, pois tinha ganhado o tão sonhado vídeogame.
E como papai era um homem muito justo e moderado, imaginem só a surpresa que eu e minha mãe tivemos, quando um funcionário uniformizado tocou a nossa campainha em plena manhã de sábado perguntando pelo Sr. Gumercindo, meu pai. Atrás dele estava um Camaro igualzinho ao do Transformers. Amarelo com faixas esportivas pretas. Era realmente o Camaro Bumblebee! Na minha imaginação de criança, fiquei pensado em qual hora ele se transformaria em robô e falaria com a gente. O que é claro, nunca aconteceu.
– Papai, corre aqui em baixo. Tá acontecendo algo muito estranho!
– Deve ser a minha encomenda. Tô descendo já.
Minha mãe ficou em silêncio. Aturdida. Apenas esperando por uma explicação lógica para tudo aquilo, se é que teria alguma. (...)

E tudo se apascentou em nossos corações surpresos depois de uma semana. Como ele nunca havia feito nenhuma extravagância na vida que não fosse em prol dos outros, nada mais justo que agora ele realizasse o seu próprio sonho, por mais destoante com seu perfil que tivesse sido. Eu e mamãe acabamos adorando a idéia de desfilar por aí dentro de um carro meio super-herói. E nem preciso dizer o quanto o papai tinha zelo por aquele carro para vocês, não é? Limpava. Encerava. Lustrava. Revisava entusiasmadamente o bichinho amarelo. E se pensávamos que era empolgação de início, nos enganamos redondamente. Piorou muito. Com o tempo eu mal podia encostar-me à lataria, do agora intruso, sem o papai ralhar comigo.
Até que um dia o pior aconteceu!
Apareceu uma mancha amarela bem no meio da faixa preta daquele carro idiota. E papai foi à loucura. (loucura mesmo, vocês breve vão entender o que digo!)
De início ele pensou que fosse um descascado mostrando então a tinta amarela por baixo da bela faixa, mas não era. Era simplesmente uma mancha misteriosa. Nenhum dos profissionais conseguia explicar a origem daquela tragédia para papai.
Ele começou a ter um comportamento irritadiço a cada vez que abria o portão da garagem e lá estava a maldita mancha olhando para ele, debochando de sua impotência de se livrar dela. E parecia mesmo que ela se alimentava de sua tristeza, porque crescia sorrateiramente pelo capô, causando-lhe ainda mais dor.
 E assim, eu vi meu pai se transformar aos poucos numa pessoa totalmente diferente. Ele passou a ficar obcecado por manchas. Certa vez jogou a TV lá fora no quintal e dizia que a mancha agora estava querendo tomar também a sua casa, só porque eu tinha, sem querer, espirrado um jato de mostarda na tela da pobre coitada.
E como a mancha não parava de crescer, tudo foi piorando na vida de papai. Até que por fim, ele terminou despedido por se recusar a atender um cliente “graúdo”, só porque o sujeito estava com a gola da camisa toda manchada. Chegou até a agredir verbalmente o desavisado, que não entendeu patacas. Ainda bem que sendo muito querido por todos ao seu redor, o seu chefe nem lhe deu uma “justa causa”, e ele acabou recebendo ainda uma boa bolada.
Mas o pior mesmo foi quando ele ficou três dias inteiros trancado dentro do seu quarto, com um monte de frascos de tira-manchas na mão esfregando por todo lado.
Não teve outro jeito. Mamãe chamou os médicos e papai foi encaminhado a uma clínica psiquiátrica. Foi um golpe!
Mas lá papai foi muito bem tratado. Recebia nossas visitas com um sorriso que eu já estava até me esquecendo de como era. E começou a descobrir dons que nem sabia que possuía, como por exemplo, o de pintar maravilhosos quadros. Por fim eu achava que papai estava bem melhor que antes. Quando só vivia do trabalho para casa e vice-versa. E nunca reclamava de nada, mas eu percebia que os seus olhos não eram felizes.
 O médico até explicou que papai sofreu um ataque porque reprimia desde muito cedo suas emoções. O vovô, não era como ele, tão calmo e generoso, sem querer ou não, havia submetido o pobre filho a muita pressão. (...)

Então, tudo estava indo muito bem. Papai já estava quase por receber alta. Ele já havia até se decidido dedicar-se à nova profissão de pintor de quadros. Mas, uma funcionária nova cometeu um erro fatal. Entregou gentilmente o uniforme limpo de papai sem saber do seu mal, pois quando ele desdobrou o avental:
Lá estava ela. Enorme! Zombando-lhe, com um riso sarcástico de vitória. Aquela maldita mancha amarela.


© Por Lilly Araújo-17/05/2011 - Direitos Autorais Reservados.



















Pubicado na CBJE -RJ

sábado, 9 de julho de 2011

Um Lugar De Meus Sonhos


Um Lugar De Meus Sonhos

Acordei muito gripada. Resolvi nem sair de casa hoje, porque nesse estado seria muito difícil enfrentar um ônibus lotado, e poderia acabar disseminando esse vírus que me pegou de jeito. E ir de carro com a gasolina a 3 reais e 15 centavos? Nem pensar!
Fiquei em casa mesmo refletindo...
Eu sou brasileira e pago os meus impostos, até os que desconheço eu vou pagando, e pagando. Mas quando entro no hospital público é sempre a mesma história: “O médico de plantão ainda não chegou e já tem 30 pessoas na sua frente!”. O jeito é esperar, ou me automedicar, ou pagar mais uma vez por um médico particular.
E o Brasil está crescendo em ritmo assustador. Talvez seja até por isso que os impostos não baixam, porque senão o povo consome muito e desregula a economia. Esse papo econômico que eu nunca entendo direito. Porque a escola fez questão de nos treinar para outras coisas, que não, entender as peripécias econômicas, malandragens políticas e de nossos direitos civis, nada garantidos pela maioria dos candidatos que elegemos “democraticamente”.
 Então eu me dou ao luxo forçado de ficar em casa e observar de fora, como um mero expectador, o pulsar frenético da cidade grande. De dentro do meu apartamento estou a salvo! Pelo menos por um dia.
Aqui da minha janela eu vejo as fumaças saindo dos escapamentos dos milhares de carros engarrafados no trânsito febril, e brinco de imaginar bichinhos e objetos se formando nelas, assim como fazia com as nuvens quando era criança. Percebo quando um motorista a beira de em surto psicótico coloca o corpo do lado de fora de seu carro e gesticula enraivecidamente contra um outro, que acabou de lhe dar uma fechada para conseguir uma ultrapassagem forçada. A altura em que estou e meu vidro da janela fechado me poupam de ouvir as suas verbalizações, que com certeza não foram nada gentis. Eu apenas sorrio, e penso que loucura!
Volto ao meu chá de gengibre com gotas de limão que está quentinho e me enfio debaixo do edredom aconchegante, e vou me lembrar de quantas vezes eu pude ficar com janelas abertas e mesmo assim conseguir respirar, isso era quando estava na fazenda de meus avós, e os únicos sons que me acordavam era de grilos, pássaros, cigarras e outro bichos felizes a viver a vida como eu gostaria.
Num dado momento de minhas conjecturas eu me compadeço de você, que provavelmente não acordou gripado hoje, e teve que sair de casa para a lida, ao certo enfrentou um ônibus abarrotado de trabalhadores, ou se sentiu assaltado na bomba de combustível, e encarou o trânsito mais uma vez engarrafado, e ainda filas de bancos sem fim. Você que engoliu muita fumaça preta, muito “sapos” do chefe estressado, que saiu para o almoço e voltou atrasado, ou você que nem teve tempo de almoçar. Eu me compadeço de você, que infelizmente retornou desamparado e desesperançado, sem o atendimento do hospital mal equipado, e pensou: “Para onde é que foi o dinheiro dos impostos que eu pago?”- Como eu também pensei.
E pelo cansaço e medicação eu adormeço, e sonho com uma cidade bem projetada, onde os políticos amam o povo que os elegeu e os paga tão bem, e assim retribuem com saúde e educação pública exemplar. Um lugar onde a poluição foi erradicada por pesquisas patrocinadas pelo governo, e descobertas por esses maravilhosos cientistas que nós temos hoje em nosso país. Na cidade grande dos meus sonhos, cada um respeita o seu próximo e por isso não há injustiça e má distribuição de renda, e todos podem respirar aliviados. Até as árvores são mais saudáveis e têm líquens em seus troncos, porque o ar está limpo. E os seus galhos acolhem ninhos de passarinhos cantantes...
Então eu acordo com o estrondo uma batida violenta nas ruas lá em baixo. E percebo que eu e você ainda vivemos nesta mesma cidade. E só nos resta tentar nunca perder as esperanças de morar um dia em um lugar de meus sonhos.

© Por Lilly Araújo-20/04/2011- Direitos Autorais Reservados.



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quinta-feira, 16 de junho de 2011

O Relógio Cuco
















O Relógio Cuco

Estava sentada em frente ao seu computador, como o de costume. Seu gato preto aproximou-se sorrateiramente e, exigindo atenção, pulou em seu colo, ela sorriu do atrevimento, pois dentre todos os seus bichos, ele era o único que não era dado a esse tipo de exibição gratuita de afeto, achou incomum, e conseguiu desconcentrar dos afazeres e para acariciar o bichano. Passados alguns instantes, ela voltou a olhar para tela, enquanto acariciava o animal, mas ele se zangou e teceu-lhe uma mordida.
– Animal imbecil!- Balbuciou, jogando o animal no chão e indo lavar a mão que sangrava.
Voltando para o escritório parou e olhou para o grande e velho relógio cuco pendurado na sala, que tocava somente à meia-noite. O havia comprado numa loja de antiguidades, o dono da peça havia avisado a ela sobre a peculiaridade, mas Ana achou o fato curioso e até engraçado, pediu um desconto no relógio e o levou para casa.
Lembrar daquele dia mexeu com sentimentos de Ana, e ela pegou-se nostálgica. Era como se estivesse sentindo falta de algo ou de alguém que não sabia bem explicar. Sentou-se no sofá e descansou um pouco o corpo, enquanto isso sua mente estava a mil. Recostou sua cabeça para trás uns instantes e permitiu-se um pouco de ócio.
***
Um barulho estranho estrondou no fundo da casa, perturbando suas divagações. Ela levantou-se assustada e saiu correndo em direção ao som irrefletidamente, desconsiderando o perigo da situação em que se encontrava: indefesa e sozinha naquela casa.
Viu um vulto se esgueirar em meio às dezenas de árvores de seu quintal, que mais lembrava um bosque, e que àquela hora da noite, sob a luz da lua cheia, ficava mais parecido com cenário de filme de terror. Parou um pouco e lembrou-se de uma amiga que implicava com aquela casa, com aquele quintal, e o com fato dela insistir em morar naquilo tudo sozinha.
– Se Mel me visse agora, com certeza me mataria com suas próprias mãos. – Pensou consigo mesmo e resolveu desistir da busca.
Voltou para dentro de casa, trancou as portas e janelas. Tentou se distrair. Sentou-se em frente ao computador de novo. Mas tudo agora a incomodava. Sentiu um calafrio percorrer de alto a baixo sua espinha. E como já se não bastasse, parou sem querer os olhos sobre o canto inferior direito de sua tela constatando o que não queria naquela altura dos fatos: Era sexta feira 13!
Em toda sua existência, Ana brigou com qualquer possibilidade de ser supersticiosa, e havia conseguido vencer todas elas menos uma: A terrível noite de Sexta feira 13!
Correu para o chuveiro, como sempre fazia quando algo a perturbava. Ficou debaixo da água quente. Olhos fechados, uma touca de plástico na cabeça para a água cair sobre ela imitando o barulho da chuva. É assim que relaxava.
Depois que saiu do banho, enfiou-se em um de moletom rosa. Tentou esquecer-se de tudo e quando quase conseguia algo começou a bater violentamente em sua janela. Pegou o telefone para pedir ajuda, mas estava sem bateria. Desesperou-se. Isso não podia estar mesmo acontecendo.
Começou a ouvir grunhidos que parecia vindo um animal selvagem.
– Um monstro. Um lobisomem! – Pensou.
– Calma Ana, não enlouqueça! – Gritou para si mesma, mas não parecia lhe obedecer. E nem suas pernas também pareciam.
Sentiu-se criança novamente, sentada à beira da fogueira com outras crianças, sob a tortura dos mais velhos a lhes contar contos de sexta-feira 13. Noites em que se via fascinada pelo perigo da imaginação alheia, e que suas pernas nunca respondiam, quando algum engraçadinho saía da escuridão e gritava aterrorizantemente colocando todos para correr. Todos menos ela, que ficava estática, parecendo que nem sequer tinha pernas.
***
Mas agora era diferente. Não havia fogueira. Nem crianças mais velhas. Ela mesma já não era mais criança, exceto pelo pavor que explodia em seu peito.
De repente, qualquer barulho silenciou, ela percebeu que o vulto saiu da janela e se dirigiu para outra, na lateral da casa, que dava para o Quintal-Bosque-do-Terror.
Deslizou-se pelo corredor sutilmente, com os pés descalços, para olhar pela fresta da janela, e quando finalmente teve coragem para espiar, deu de cara com o focinho de uma fera canina. Gritou histericamente e a janela começou a ser golpeada novamente, parecia que agora não ia aguentar.
– Pensa Ana, pensa rápido! – Gaguejava.
Por milagre achou suas pernas, e correu. Correu muito. Foi em disparada para cozinha e se agachou dentro de um dos armários tremendo.
–  Sexta-feira 13! Sexta-feira 13! Por quê?
A janela continuou sendo golpeada, até que finalmente cedeu. A fera meio gente meio lobo, entrou babando e ofegante pela casa. Jogou longe o cadáver de alguma criatura. Ana pode ver de dentro do armário que era o seu bichano que a pouco estava seguro em seus braços. Agora, não passava de uma carcaça ensanguentada.
Lágrimas quentes rolavam de seu rosto sem parar. Nada de racional passava por sua cabeça nesse instante. Chorava mesmo como uma pobre e condenada criança.
A fera dava cada passo lentamente farejando sua próxima vítima. Parecia se divertir com o jogo de esconde-esconde.
Ana já não sabia mais o que fazer, qualquer atitude parecia absurda diante daquela criatura peluda e mal cheirosa. Começou a rezar.
A criatura então chegou até onde ela estava, olhou com olhos vítreos para sua direção, quase que lhe adivinhando o paradeiro. Aproximou-se maleficamente e arrancou a porta que a escondia.
Aquilo parecia o próprio demônio. Olhou-a fixamente nos olhos enquanto segurava-lhe pelo pescoço levantando-a do chão.
Ana podia jurar que via um sorriso sarcástico em seus lábios-caninos. E, sem piedade, encravou suas garras afiadas no seu frágil corpinho.
Nesse instante, a besta-fera comemorou sua vitória com um uivo estremecedor:
– Cuco. Cuco. Cuco...
***
Ana acordou no meio da sala, com seu felino amolando suas garrinhas em seu moletom. Ela estava sem fôlego e completamente suada. Olhou para parede muito aliviada, e mais que isso, estava mesmo agradecida.
Seu Relógio Cuco acabara de salvar a sua vida.

© Por Lilly Araújo – Direitos Autorais Reservados.

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sábado, 14 de maio de 2011

Sem Pressa!



Sem Pressa! 

Ah, eu estou me sentindo meio descrente da vida, sabe? Com meu corpo sedentário sobre a cama por horas a fio, e já quase atrofiando a alma.
Estou com vontade de fugir de tudo que é urbano. Esquecer os fios conectores, o Bluetooth, Ipods, ou qualquer coisa que tenha teclas, ou telas, ou façam qualquer som frenético. Vontade de deixar esse mundo que se tornou tão aflito, e que tem sempre muita pressa. Onde tudo é manejado por um apertar de botões. Meus ouvidos estão feridos!
Estou com sede de terra molhada, de sentir o aroma de grama amassada, de formiga esmagada, enquanto o único som que se possa ouvir seja dos pássaros lutando no ar, numa dança de acasalamento, paz e alegria; que seja o som das cortadeiras picotando suas folhas e marchando por entre os trieiros, como se fossem soldadinhos; que seja o som dos estalidos dos gravetos que se desprendem das árvores ou do bico das passarinhas que ajeitam maternalmente o ninho dos seus filhotinhos. Quero ouvir o som das águas batendo contra as pedras e fazendo esculturas infinitas.
Quero adentrar-me no rio e me deixar levar pelo seu leito tortuoso, e sentir a água me abraçar, e a brisa me acariciar. E ir percorrendo o seu caminho sem pressa. E ter tempo de observar o céu azul claro, e uma diversidade de aves cortando o seu espaço, todas leves e belas, alheias ao meu observar. E sentir o sol bater intermitente no meu rosto, entrecortando os ramos das matas ciliares que circundam o rio onde meu corpo bóia, como uma pluma, feliz!
E assim continuar percorrendo juntos às águas, caminhos que eu nunca conheci, até que o dia seja noite. E sentir agora os dedos enrugados, e o bater das minhas mandíbulas pelo frio do rio, e isso também me deixar feliz.
E me refugiar depois em uma das margens. Jogar meu corpo na areia e ficar inerte. Observar cuidadosamente que o céu trocou sua roupa anil por saias alaranjadas, que pouco a pouco vão se tornando azul turquesa, e salpicos como lantejoulas vão lhe sendo cosidas, em forma de estrelas.
E no frio acolhedor da areia me deixar ficar um pouco mais, e notar que os sons também se transformaram. Agora, o bater das asas dos pequenos passarinhos silenciou. Dormem aconchegantes em seus galhos e ninhos. E as cortadeiras também foram descansar. Ainda estalam os pequenos gravetos que se desprendem, e o som das águas escultoras também continua o mesmo. Lentamente os anuros começam a reger a orquestra do anoitecer: sapos; pererecas e rãs, “gritam” e saltam desenfreadamente, como se quisessem alcançar os pirilampos piscantes pregados à grande teia que é o céu, e assim, comer uma a uma, cada estrela.
Estou com sede dessa paz que há muito não sinto. Estou com medo de jamais torná-la a sentir. Presa na cadeia Cidade-Grande, onde os sons são sempre de botões, buzinas, palavrões e, acima de tudo, de pressa. Muita pressa.

                                             
© Por Lilly Araújo – 21/11/2010 - Direitos Autorais Reservados.


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quarta-feira, 23 de março de 2011

O Casamento de Síssi



Maria Cecília ou Síssi, como gostava de ser chamada, acordava cada vez mais cedo e dormia cada vez mais tarde nas últimas semanas, os preparativos de seu casamento estavam absorvendo todas as suas energias, mas isso não a deixava cabisbaixa, pelo contrário, Síssi parecia resplandecer cada dia mais, e ficar ainda mais eufórica com o chegar da data tão esperada.
O clima estava muito propício para que tudo fosse bem à alma de Síssi, afinal de contas o Outono já havia chegado: Sua estação favorita. O amor estava no ar para ela nessa estação, o sussurrar dos ventos por entre as árvores que ficavam alaranjadas lhe deixava totalmente radiante. Adorava deitar-se nas folhas ao chão, que formavam tapetes alaranjados, desde sua mais tenra infância. Não fora por acaso que escolhera essa estação para se casar. Não, tudo fora calculado milimetricamente por ela desde que seu amado noivo fizera o pedido de sua mão há um ano.
O mês escolhido foi Maio, que era o “Mês das Noivas”, e era ainda o mês em que ela e Paulo se conheceram, e também sua estação preferida. A lua de mel se daria em Campos do Jordão, pois em suas pesquisas na net descobrira que com a quantidade de árvores na região tudo seria um paraíso só. Um paraíso alaranjado.

- Não é mesmo muita sorte meu fofinho? – Repetia Sissi a seu noivo.

Ela era tida como uma garota de muita sorte pelas amigas, dentre as mais íntimas: Gina e Amanda, ou Nananda, como balbuciava a irmãzinha, e acabou pegando. Síssi achava que não era só sorte, mas sentia no fundo que “Alguém lá em cima” gostava muito dela. Não ficava citando o nome de Deus à toa, achava falta de respeito, também não encrencava com ninguém por causa de questões religiosas ou políticas, tão pouco futebolísticas. Apenas acreditava n’Ele e se sentia amada e cuidada.

Era feliz! Ninguém podia negar.

***

Faltando uma semana para o Dia, Síssi exagerou em sua agenda corrida e acabou apanhando um resfriado.

- Que azar!- disse Nananda.

- Que nada, não é azar, é só gripe. - Retrucou Síssi, com seu bom humor usual.

- Só gripe, mas às vésperas do casório, enlouqueceria qualquer noiva. - Completou Gina.

-Mas não minha Síssi. – Interveio o noivo de olhar apaixonado.

***

A partir daquele dia, um conjunto de fatos estranhos começou a ocorrer em torno de Sissi. Parecia que de repente a boa sorte da garota havia virado.

Quando foi fazer a prova do vestido, a costureira estava com um humor do cão, havia brigado com o marido. Disse coisas terríveis sobre casamento, desfiou um rosário de lamentações sobre as amarguras de se viver a dois, e não bastasse o fato dessas palavras já ser o suficientemente ruim para uma candidata ao cargo de casada, a distração da costureira lhe rendeu diversas alfinetadas. Só Síssi mesmo para continuar sorrindo, e ainda oferecer gentis palavras de conforto à pobre senhora, outra noiva teria exigido trocar de costureira, principalmente em se tratando das costumeirasnoivas à beira de um ataque de pânico”, que todas parecem ser quando a data se aproxima. Mas essa não era uma descrição correspondente a dócil Síssi.
No outro dia, chamou as duas amigas para irem ao salão, cuidar dos últimos preparativos, mas as duas deram suas desculpas e se esquivaram do compromisso. Síssi achou estranho, mas não reclamou, mal sabia ela o quanto iria precisar de um ombro amigo naquele dia.
Quando lá chegou teve a pior notícia que poderia ouvir, um encanamento havia estourado e comprometido toda a estrutura do espaço que ela escolhera para realizar a cerimônia. Síssi empalideceu, em segundos, todas as implicações que aquela notícia trouxe passaram pela sua cabeça. Não estava mais sorrindo. Saiu meio atordoada e apressada para tentar encontrar outro local.
Ligou para Paulo e contou-lhe a novidade com a voz embargada. O noivo disse para ela ir ao seu encontro. Síssi enxugou as lágrimas e dirigiu até o escritório onde ele advogava, mas não bastasse tudo, o pneu do carro furou, e um dia antes ela emprestara o estepe a seu irmão mais novo, que garantiu que era só o tempo de ir à borracharia e já o traria de volta. Como sempre, não foi o que ele fez. E na correria ela se esquecera disto completamente.
Pobre Síssi, terminou a tarde guinchada. Os olhos inchados.

***

Faltando dois dias, fatos menos graves aconteceram ainda, uma madrinha que não iria mais poder vir, somado ao fato que sua filha era uma das damas.
O pior de tudo mesmo foi quando foi pegar o vestido. Ela havia pedido que estivesse numa embalagem lacrada de modo que seu noivo não pudesse ver, para não estragar a surpresa, pois não era supersticiosa quanto a isso, mas não abria mão de ver seu noivo no altar ficando embasbacado ao lhe ver no modelo escolhido com toda cautela.
Dessa vez suas amigas tinham ido juntas, para compensar o outro dia, que com certeza deveriam ter estado lá.
Síssi subiu elétrica pela escadaria. As amigas admiravam cada vez mais seu otimismo, principalmente depois dos últimos e lamentáveis fatos. Mas, mais uma vez, a sorte lhe abandonara. A tal costureira problemática havia abandonado o emprego pouco depois da prova de Síssi, e as outras funcionárias haviam se esquecido de seu vestido.
Síssi, desceu as escadas correndo, passou por Paulo e continuou sem rumo. Sentou-se num banco na praça, ficou pensando por um longo tempo. Olhou para cima num gesto de indignação. Foi então que uma brisa suave começou a soprar pequenas folhas alaranjadas sobre ela. Sentiu-se abraçada e confortada novamente. Lembrou-se que “Alguém lá em cima” gostava muito dela. Levantou-se e foi correr atrás do prejuízo.

***

Dia doze de Maio: Síssi casou-se na igreja que uma tia indicou, não era o salão escolhido. Entrou com um vestido que lhe arrumaram às pressas, não era o tão sonhado modelo. Uma madrinha e nova dama haviam substituído as desistentes.
Maria Cecília entrou deslumbrante, com um brilho no olhar inconfundível: era a Síssi!

Síssi, que se casou com o mesmo noivo Paulo (Rss!), no seu mês de Maio, na sua estação de Outono!
  
© Por Lilly Araújo-Direitos Autorais Reservados.

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